Canto I

            Mamãe soluçava da sala e eu sabia que se ela bebesse água ou prendesse a respiração por dez segundos tapando o nariz com os dedos não passaria. Ela chorava, mas eu nunca havia ouvido aquele som. Um mês antes o chefe dela disse que ela não prestava para o trabalho, que ela era uma inútil e um tanto de outras coisas que eu não consigo lembrar, e ela se acabou em lágrimas, mas não assustava. Agora ela uivava uma canção de lamento, e puxava o ar como que pedindo para ele não vir, e os outros na sala agarravam ela pelos braços e colocavam ela sentada e davam água e ela à lobo para lua se contorcendo em dor.
            Eu tapei meus ouvidos bem forte até conseguir parar o tempo, mas não deu. Levantei-me e fui até a sala e vi mamãe sentada na poltrona com o rosto enfiado nas pernas e um punhado de gente que eu já havia visto – outros não – sussurrando e falando pelos cantos.
            Meu filho, ela me disse, e eu corri para abraçá-la. Ela me apertou e doeu de verdade. Ela sempre dizia que queria me abraçar até me estalar as costas. Estalou. Doeu, mas não as costas: uma parte de dentro de mim que ainda não havia doído. Ela me olhou nos olhos, mas eu não vi os dela, estavam anuviados de tristeza. Seu pai... e me apertou de novo e começou a beijar minhas bochechas de um lado, do outro, na testa, no olho, e me puxava para si e me jogava para dentro do seu peito e me molhava de desespero.
            Arrancaram-me dela e me sentaram em uma cadeira. Olharam-me calados, querendo me explicar, mas eles não sabiam nem para eles. Não era fácil destrinchar para um menino de treze anos que o pai tinha enfiado o cano do revólver no céu da boca e bum, ido embora. Antes ele deixou um dinheiro em cima da mesa Para pagar Seu Valdomiro, e só.
            Diana ainda dormia e ninguém parecia querer que ela acordasse, só eu, porque eu não sabia dar um passo sem Diana para me guiar. Mamãe conta que ela chegou primeiro depois de mais de vinte horas no hospital, e que depois tudo foi mais fácil porque Diana ajudou mamãe a me trazer para o mundo. Eu nunca entendi como uma recém-nascida poderia ajudar o irmão que estava entalado na Delfos da mãe, mas ela dizia que sim e eu calava.
             Na noite passada estava todo mundo sentado neste sofá vendo o Branco meter aquela bomba e o Brasil passar da Holanda e o papai gritava e me abraçava e falava do Romário e do Bebeto e que finalmente a gente ia ser campeão de novo. Para mim nunca havia existido outra Copa, mas para ele era “finalmente”. Quando o Taffarel agarrou todos aqueles pênaltis na final eu me fiz em pedacinhos de baggio porque o finalmente só existiu para mim.
            Pó, o que aconteceu?. Diana entrou na sala arrastando o lençol pelo chão. Eu corri até ela e a abracei e disse Tá tudo bem. Mas não tava, e eu sabia, só não sabia por quê. Ela me chamava de Pó, mas todo o resto eu só respondia por Apolo. Diana e Apolo, Apolo e Diana. A gente nasceu junto no Hospital Juno de Nossa Senhora, e a gente ia para a mesma escola, na mesma sala, e comia junto no recreio, e assistia aos desenhos agarrados, e estudava um explicando para o outro tim-tim por tim-tim e tirava nota igual, e se não fosse igual ela dava um jeito de ser, puxando a perninha de um nove vírgula três para virar nove vírgula oito e coisa assim.  
            A Tia Semele disse que só a sabedoria de Atena iria nos fazer entender, mas ela era carola e ninguém aguentava o nhem-nhem-nhem dela dos deuses e de Cuidado com as punições que se não Ele lança um raio e depois a gente nem ouvia mais. Então entraram uns homens feios que olhavam para o chão e saíram com papai enfiado em um saco. Eu só vi o preto e abracei Diana e mamãe veio também e nos ajoelhamos juntos e eu sentia o gosto das lágrimas sem saber qual sal era de quem. Ninguém nunca disse para mim o que aconteceu, eu li no saco que descia as escadas e esvaziava o sentido.
           

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